Soldado Júlia Maria faz história e se torna a primeira mulher a concluir o temido curso “Jacarezinho” da Marinha no Pantanal

Fuzileira naval de 22 anos supera 47 dias de treinamento extremo e entra para a história da Marinha do Brasil ao concluir, com êxito, o Curso Expedito de Operações no Pantanal

Da Redação

A soldado fuzileiro naval Júlia Maria, de apenas 22 anos, entrou para a história da Marinha do Brasil ao se tornar a primeira mulher a concluir o Curso Expedito de Operações no Pantanal (C-Exp-OPant), conhecido como “Jacarezinho”, em seus 36 anos de existência. O feito, considerado histórico dentro da Força, foi alcançado após 47 dias de treinamento intenso em uma das regiões mais hostis e imprevisíveis do país.

Realizado entre novembro e dezembro, nas áreas dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, o curso impôs aos alunos desafios extremos: calor escaldante, chuvas torrenciais, terreno constantemente alagado, presença de animais peçonhentos e um elevado nível de desgaste físico e mental. Entre os momentos mais difíceis, Júlia destaca a marcha de 12 quilômetros, sob forte calor, carregando mochila cargueira e fuzil.
Como sou mais baixa, precisei me esforçar o dobro para acompanhar o ritmo”, relembrou a militar.

Mesmo diante das adversidades, a desistência nunca foi uma opção.
Se eu não fosse desligada por insuficiência técnica ou de saúde, eu não sairia. Desistir não era uma opção”, afirmou. Dos 49 militares que iniciaram o curso, apenas 23 chegaram ao final — entre eles, Júlia, agora oficialmente combatente ribeirinha.

Vocação, disciplina e superação

Natural do Rio de Janeiro e criada na Ilha do Governador, Júlia carrega no histórico familiar a inspiração para a carreira militar. Neta de um sargento do Exército e de uma professora da rede pública, cresceu em um ambiente marcado pela disciplina e pelo incentivo ao esforço. Antes de ingressar na Marinha, conciliava trabalho em uma rede de fast food com os estudos. A aprovação no concurso ocorreu no limite da idade permitida, e sua incorporação à Força aconteceu em agosto de 2024, integrando a segunda turma feminina de soldados fuzileiros navais.

Atualmente, Júlia serve no 2º Batalhão de Infantaria de Fuzileiros Navais, o tradicional Batalhão “Humaitá”, no Rio de Janeiro. A decisão de realizar o curso no Pantanal causou surpresa entre colegas, mas também gerou apoio. Antes do deslocamento, recebeu de um instrutor veterano um brevê simbólico, como forma de incentivo. Já em Ladário, optou por raspar a cabeça por questões de segurança operacional, doando posteriormente o cabelo a uma instituição de caridade.

O curso “Jacarezinho”

O Curso Expedito de Operações no Pantanal é realizado pelo 3º Batalhão de Operações Ribeirinhas (3ºBtlOpRib) e tem como principal área de instrução a Área de Adestramento do Rabicho (AAR), com 205 km² ao longo do rio Paraguai. Durante o treinamento, os alunos passam por instruções rigorosas de sobrevivência, natação utilitária, orientação e navegação fluvial e terrestre, operações com embarcações e aeronaves, além de tiro de combate.

De acordo com o comandante do 3ºBtlOpRib, capitão de fragata (fuzileiro naval) Danilo Lopes da Silva, a complexidade do curso está na própria natureza do Pantanal.
É um ambiente que exige grande capacidade de adaptação, com mudanças bruscas de clima e terreno constantemente alagado”, destacou.

Ao final do treinamento, os concluintes passam a ostentar o tradicional gorro marrom, símbolo das águas do Rio Paraguai, além do distintivo com a tríade Jacaré–Âncora–Louros, que representa força, compromisso com a Marinha e superação das adversidades. Com a conclusão do curso, Júlia passa a integrar o seleto grupo de 909 combatentes ribeirinhos formados pela Marinha do Brasil.

Outros marcos inéditos

Além do pioneirismo feminino, a edição deste ano do curso também foi marcada por outros feitos inéditos. Pela primeira vez, um oficial da Armada concluiu o treinamento: o primeiro-tenente Elias de Lima Machado, do Navio Monitor “Parnaíba”. Outro destaque foi o “Aluno 01”, o capitão de fragata (fuzileiro naval) Francisco Leonardo Carvalho Amambahy Santos, futuro comandante do 3ºBtlOpRib, que decidiu participar do curso para vivenciar a rotina operacional antes de assumir o comando em 2026.

Orgulho e inspiração

Para Júlia, no entanto, a maior recompensa veio no plano pessoal.
Liguei para minha avó e ela chorou, dizendo que eu era o grande orgulho da vida dela. Tudo valeu a pena”, contou emocionada. A soldado espera que sua trajetória sirva de inspiração para outras mulheres.
Mesmo que não consigam de primeira, não desistam. Com foco e persistência, a vitória chega”, afirmou.

Com informações da Agência Marinha de Notícias.