Com informações do Midiamax
O atropelamento de animais silvestres segue como uma das principais ameaças à biodiversidade em Mato Grosso do Sul, especialmente em áreas que cortam o Pantanal e o Cerrado. Dados do programa Estrada Viva, do Governo de Mato Grosso do Sul, mostram que, somente em 2024, foram registrados 379 animais atropelados em rodovias do Estado.
Entre os casos contabilizados, 341 eram mamíferos, 28 aves e 10 répteis, o que reforça o impacto direto sobre espécies que dependem de grandes áreas para sobreviver e possuem baixa taxa de reprodução. Tamanduás, capivaras, jaguatiricas, lobos-guará e até onças-pardas estão entre os animais mais frequentemente atingidos.
O problema é ainda mais sensível em Mato Grosso do Sul por causa da presença de dois dos biomas mais importantes do país. O Pantanal, considerado uma das maiores planícies alagáveis do planeta, e o Cerrado, conhecido pela alta diversidade de fauna e flora, são atravessados por importantes corredores rodoviários, como a BR-262, rota estratégica entre Campo Grande e a região pantaneira.
Segundo estudos da bióloga Fernanda Abra, referência nacional em ecologia de estradas, o atropelamento de fauna não representa apenas a morte de animais, mas também a fragmentação de habitats, o isolamento de populações e a redução da diversidade genética das espécies. Ela aponta que essa é uma das principais causas de perda crônica de biodiversidade no Brasil.
Espécies vulneráveis
Espécies como anta, tamanduá-bandeira e lobo-guará estão entre as mais vulneráveis justamente por dependerem de extensos territórios para alimentação e reprodução. Quando rodovias cortam essas áreas sem planejamento ambiental adequado, o risco de colisões aumenta significativamente.
Além disso, períodos de seca e queimadas agravam o cenário no Pantanal e no Cerrado. Nessas épocas, muitos animais deixam seus habitats naturais em busca de água e alimento, cruzando rodovias com mais frequência e elevando o número de atropelamentos.
Para Raquel Machado, CEO do Instituto Líbio, que atua na reabilitação de animais silvestres vítimas de atropelamentos e outras ameaças, o problema exige resposta urgente. “É um sofrimento evitável, que escancara a falta de planejamento ambiental nas nossas rodovias. Quando um animal é atropelado, não estamos perdendo apenas um indivíduo, mas comprometendo toda uma cadeia ecológica”, afirma.
Ela destaca que o resgate e a reabilitação são apenas a última etapa de um problema muito maior. “Precisamos investir em prevenção, com passagens de fauna, cercamentos, sinalização eficiente e educação dos motoristas. Sem isso, continuaremos enxugando gelo”, completa.
Especialistas defendem que o Brasil já possui conhecimento técnico suficiente para reduzir esse tipo de ocorrência. Entre as medidas consideradas mais eficazes, estão a instalação de passagens subterrâneas e viadutos verdes, cercas direcionadoras, sinalização específica em áreas críticas e o uso de tecnologias como sensores e sistemas de alerta para motoristas.
Já a plataforma Estrada Viva também busca ampliar a participação da população no monitoramento desses casos, permitindo o registro de atropelamentos e ajudando na identificação de trechos mais perigosos.
