Comunidade indígena na Serra do Amolar relata aumento de ataques de onças e clima de medo entre moradores

Foto: Maria Helena da Silva Andrade

Moradores da comunidade Barra do São Lourenço, localizada na região da Serra do Amolar, em Corumbá, voltaram a manifestar preocupação com a presença constante de onças-pintadas nas proximidades das residências. O temor aumentou após a soltura da onça conhecida como “Corumbella”, realizada no início de maio em uma área remota do Pantanal.

Indígenas da etnia guató afirmam que os ataques a cães têm ocorrido com frequência cada vez maior, especialmente no período de cheia, quando o avanço das águas reduz os espaços secos disponíveis para a fauna silvestre. A situação tem deixado famílias em alerta permanente, principalmente durante a noite.

O pesquisador Jorge Eremites de Oliveira, professor da Universidade Federal de Pelotas e estudioso da história, arqueologia e antropologia do povo guató, explicou que os relatos sobre a aproximação de onças das casas se intensificaram nos últimos anos.

Segundo ele, moradores convivem com episódios frequentes de tensão e insegurança. “A comunidade vive alarmada”, declarou o pesquisador em entrevista ao portal Campo Grande News. Ainda conforme Jorge, há registros de dezenas de cães mortos por ataques de onças nos últimos anos.

Entre os casos relatados recentemente, moradores disseram ter percebido a possível presença de uma onça após cães começarem a latir intensamente durante a madrugada. Em outra situação, uma professora teria avistado o animal próximo à área habitada.

A comunidade Barra do São Lourenço está situada às margens do rio Paraguai, perto da foz do rio São Lourenço, em uma área de difícil acesso entre Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. O deslocamento até o local é feito apenas por embarcação ou aeronave. Aproximadamente 30 famílias vivem na região.

O cacique da aldeia, Denir Marques da Silva, afirmou que somente no ano passado cerca de 20 cães foram mortos por ataques de onças. Para tentar evitar novos casos, moradores mantêm os animais dentro de casa durante a noite, utilizam lanternas e fazem barulho para afastar os felinos.

Apesar disso, a principal preocupação da comunidade segue sendo a segurança das crianças. Segundo o cacique, os adultos já possuem maior experiência em lidar com os riscos do Pantanal, mas as crianças ainda não compreendem totalmente o perigo representado pelos animais silvestres.

Monitoramento da onça Corumbella

Neste domingo, o Grupo Técnico Onças Urbanas Corumbá-Ladário divulgou atualização sobre o acompanhamento da onça-pintada Corumbella, transferida da área urbana de Corumbá para a Serra do Amolar no dia 3 de maio.

Foto enviada ao Diário Corumbaense

Conforme o grupo, o animal continua sendo monitorado diariamente por meio de um colar com sistema GPS. Até o momento, não foi identificada aproximação da onça com comunidades da região.

O trabalho envolve órgãos ambientais e instituições como Ibama, Cenap/ICMBio, Polícia Militar Ambiental, Fundação de Meio Ambiente do Pantanal, Defesa Civil de Corumbá, Instituto Homem Pantaneiro e pesquisadores especializados.

Dados de geolocalização apontam que Corumbella permanece em áreas do Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense, distante de localidades habitadas. O monitoramento deve continuar pelos próximos 12 meses para auxiliar tanto na segurança das comunidades quanto em estudos científicos sobre o comportamento da espécie.

O Grupo Técnico reforçou ainda a importância da convivência equilibrada entre seres humanos e onças-pintadas para a preservação do Pantanal, destacando o papel do animal no equilíbrio ambiental como predador de topo da cadeia alimentar.